Vamos Comprar um Poeta – Afonso Cruz

 

Afonso Cruz faz-nos tomar consciência da importância da arte e da criatividade, ao contar-nos uma história em que as mesmas são consideradas inúteis. Não é de todo tempo perdido quando se presta atenção à beleza das coisas que nos rodeiam, na forma simples como são e existem. E fazermos tudo isto de uma forma desinteressada. Se no começo da história tudo tinha que ter uma função e ser contabilizado, mais à frente compreenderemos que o poder das ideias permite-nos criar algo mais profundo, de forma a que também nos consigamos sentir mais preenchidos. De forma a que sejam construídos significados e mensagens.

 

O pai exerceu vinte gramas de força na porta da cozinha e disse muito alto, antes de nos deixar na cara um ou dois miligramas de saliva, ou beijos, se quiserem ser poéticos: crescimento e prosperidade. Eu respondi na mesma moeda. Dizem que é bom transaccionarmos afectos, liga as pessoas e gera uma espécie de lucro que, não sendo um lucro de qualidade, já que não é material e não é redutível a números ou dedutível nos impostos ou gerador de renda , há quem acredite  – é uma questão de fé -, que pode trazer dividendos.

Na loja havia poetas de muitos tipos, baixos, altos, louros, com óculos (são mais caros), sendo a maior parte, sessenta e dois por cento, carecas, e sessenta e oito por cento de barba. Gostei de um que era ligeiramente marreco, uma escoliose com uma curvatura oblonga. Trajava um colete de fazenda, setenta e cinco por cento de lã, sendo os restantes vinte e cinco nylon, calças de bombazina castanhas, pantone setecentos e trinta e dois, sapatos de couro, já muito usados.

Percebi que estava cada vez mais inutilitista e que pensava em coisas só pela beleza e não queria saber do seu valor monetário ou instrumental. Estava cada vez mais esquisita, como dizia o meu irmão. Por vezes, também eu ficava a olhar para um inseto, para um padrão de um tapete, para um copo de chá com uma rodela de limão. Ou pior, para a marca que um copo de chá deixava na toalha da mesa (patrocinada por uma marca de frigoríficos). No outro dia, na escola, perguntaram-me para que é que eu queria um poeta. Disse que gostava de poemas.

Estava mesmo a sentir falta de uma metáfora ou, pelo menos, de uma comparação. Sentada à mesa, imaginei que o poeta ainda estava connosco e me dizia: Sem metáforas, por exemplo, não é muito interessante falar. Eu posso dizer que uma janela é uma janela, mas isso já toda a gente sabe. Com a poesia posso dizer que uma janela é uma bocado de mar ou uma cotovia a voar.

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