O Último Cabalista de Lisboa – Richard Zimler

 

Retrato histórico de uma época marcada pela Inquisição e pelas perseguições aos judeus de Lisboa.

Em meados de 1500, durante as celebrações da Páscoa, vários judeus eram queimados em fogueiras no Rossio, em nome do ódio e da intolerância.

Esta é também a história de Berequias Zarco – membro da escola cabalística – e da sua família que, ao mesmo tempo que clandestinamente professam a sua fé, escondidos das perseguições, têm também que lidar com a estranha e misteriosa morte do tio Abrãao Zarco e de uma jovem desconhecida, na cave de sua casa.

Para além da riqueza enquanto registo histórico da Inquisição em Portugal, é também um documento importante sobre a cultura e fé judaica.

 

«Destinado a aquecer nesse dia o coração de Deus?», pensei. Os lisboetas, com o esforço que fazem para falar por eufemismos, acabam muitas vezes por usar as expressões mais absurdas e monstruosas. Haveria outro povo à face da Terra mais capaz de transformar com a sua linguagem um escorpião numa Rosa?

Da Pequena Jerusalém e da Judiaria Pequena, e mesmo da ruazinha judaica do outro lado da cidade perto da Igreja das Carmelitas, todos carregam os seus mortos. Uns, como nós, em carroças puxadas por burros; outros, a maior parte, transportando os entes amados em carros de mão de madeira. Os mais velhos orientam-nos para os terrenos que ainda não foram usados como cemitério.

Meu tio, ao mesmo tempo que ia distribuindo fatias fumegantes de borrego por cima das nossas matzas, ia comentando que cada letra do alfabeto hebraico é governada por um anjo e que são os anjos, reunidos pelas nossas palavras escritas e faladas, que realizam os prodígios que tanto maravilham o comum dos mortais.

Acima das cabeças da multidão, viam-se subir colunas de fumo espesso em frente da Igreja dos Dominicanos. Foi o calor da emoção que me fez avançar. Voltar atrás nessa altura seria como fugir de Deus em pessoa. (…) avistei Mestre Salomão, o ourives, na orla da multidão. Tinha as mãos amarradas atrás das costas por um gigante corpulento, com musculatura lustrosa de um ferreiro. (…) O seu olhar dardejante implorava-me que fugisse dali.

Uma pira. Chamas crepitantes. Gavinhas de fogo laranja e verdes desenrolando-se em direcção ao telhado da igreja. No campanário, um frade dominicano com uma grande papada empunhava uma espada com uma cabeça decepada na ponta e exortava a populaça com uma voz irosa: «-Morte aos heréticos! Que a justiça do Senhor caia sobre eles! Fazei-os pagar pelos crimes contra as crianças cristãs!»