O Retrato de Dorian Gray – Oscar Wilde

 

Ao servir de inspiração a um pintor que imortaliza a sua jovem imagem num retrato, e graças a uma alteração na ordem natural, Dorian Gray vê conservada a sua juventude em contraste à sua imagem dilacerada pelas marcas do tempo e do pecado. Esta sucessão de acontecimentos conduzem-no a uma espiral de decadência e imoralidade com um desenlace negro. Através de Dorian Gray, Oscar Wilde retrata e critica a sociedade do século XIX, que valorizava mais o parecer do que o ser ao encobrir a sua verdadeira natureza com uma capa de inocência e virtude.

 

Perfumava o atelier um delicioso aroma de rosas, e, quando a leve brisa estival sacudia as árvores do jardim, sentia-se através a porta aberta a fragrância  pesada do lilás ou o perfume mais delicado do espinheiro de flor cor-de-rosa.Do canto do divan persa em que estava estendido, fumando, como tinha por hábito, inúmeros cigarros, Lord Henrique Wotton o mais que podia com os olhos abranger era um condesso de flores cor de mel, cujos ramos trémulos pareciam mal poder com o peso duma beleza tão etérea e subtil; e, de quando em quando, as fantásticas sombras de aves voando cruzavam as cortinas de seda que guarneciam a enorme janela, produzindo como que um momentâneo efeito japonês e fazendo-o pensar nesses pálidos pintores de Tóquio, que, por meio de uma arte que é necessariamente imóvel, procuram dar a sensação da ligeireza e do movimento. O monótono zumbido das abelhas parecia tornar mais opressivo o silêncio. O vago bulício de Londres chegava-lhe aos ouvidos como o bordão dum orgão longínquo.

– É triste pensá-lo, mas é fora de dúvida que o Génio dura mais que a Beleza. Isso explica o facto de nós nos afadigarmos tanto em nos super-educarmos. Na feroz luta pela existência, nós queremos ter alguma coisa que perdure, e, por isso, atulhamos de factos o nosso espírito, na estulta esperança de conservarmos o nosso lugar.

– Porque exercer a influência sobre um homem qualquer é dar-lhe a nossa própria alma. Ele não pensa com o seu próprio pensamento, nem arde com as suas paixões naturais. As suas virtudes não são para ele reais. Os seus pecados, se é que há pecados, são emprestados. Torna-se eco da música alheia, actor dum papel que não foi escrito para ele. O objectivo da vida é o desenvolvimento da própria personalidade. Realizar perfeitamente a nossa natureza – eis para o que nós estamos neste mundo. Hoje todos têm medo de si próprios. Todos esqueceram o mais alto de todos os deveres, o dever que cada um de nós tem para consigo mesmo. São caritativos, é claro.

Odiara outrora a fealdade, porque dava realidade às coisas; amava-a agora pelo mesmo motivo. A fealdade era a única realidade. As grosseiras alterações, os antros repugnantes, a crua violência da vida desordenada, a própria vileza do ladrão e do vagabundo eram mais vívidas, no seu intenso realismo de impressão, do que todas as formas graciosas de Arte (…)

Era o livro mais estranho que jamais lera. Parecia-lhe que os pecados do mundo desfilavam em silêncio diante dele, vestidos de trajos sumptuosos e acompanhados do som delicado de flautas. Apareciam-lhe subitamente como coisas reais que ele vagamente tinha sonhado. Eram-lhe a pouco e pouco reveladas coisas que jamais sonhara. Era uma novela sem enredo e com uma personagem apenas. Era simplesmente o estudo psicológico de certo jovem parisiense que passava a vida procurando realizar no século dezanove todas a paixões e modalidades de pensamento que pertenciam a todos os séculos e compendiar, por assim dizer, em si as férias funções por que passara o espírito do mundo, amando pela sua mera artificialidade aquelas renúncias que os homens insensatamente denominaram virtude, tanto como aquelas rebeliões naturais a que os homens de bom senso chamam pecado.

capa o retrato dorian gray