O Papalagui – Erich Scheurmann

 

Apesar de ter sido escrito em 1914/15, “O Papalagui” continua a retratar com fidelidade a civilização actual.
Os depoimentos escritos pelo alemão Erich Scheurmann, traduzem os relatos de um indígena de Samoa sobre o “homem branco”. Através deles, temos expresso o contraste entre uma sociedade civilizada cujo valor atribui essencialmente aos bens materiais e ao dinheiro, face a uma sociedade subdesenvolvida mas que aprofunda os valores da espiritualidade, considerando como principais as coisas simples.

 

…baús de pedra com seus muitos homens, fundas áreas de pedra correndo para um lado e para outro, quais mil e um rios, com seres humanos lá dentro, barulho e estrondo, poeira negra e fumo por toda a parte, árvore alguma no horizonte e nada de céu azul, nada de ar puro ou de nuvens – a isto chama o Papalagui uma cidade…

Podeis reconhecer também o Papalagui pelo seu desejo de nos fazer crer que somos pobres e miseráveis e que necessitamos de muita ajuda e piedade, em virtude de não possuirmos coisas.

O Papalagui é pobre porque está obcecado pelas coisas. Já não pode passar sem elas.

Destruindo, por onde quer que passe, as coisas da Grande Espírito, pretende ele, pelas suas próprias forças, fazer reviver o que mata e persuadir-se a si mesmo que é o Grande Espírito criador das várias coisas.

A máquina é um ser sem vida, frio, incapaz de falar do seu trabalho, de sorrir quando o terminou e de levar o que acabou de fazer ao pai e à mãe, para eles também se alegrarem (…) A grande maldição que a maquina encerra, é que o Papalagui deixou de gostar de toda e qualquer coisa, já que a máquina tudo pode reconstruir de imediato. Para que a máquina obre esses milagres sem vida nem calor, tem ele que dar-lhe o seu coração.

Afasta-te, mais os teus prazeres e os teus divertimentos, a tua desenfreada corrida atrás dos bens que podes agarrar com as mãos, como se fossem bens do espírito, o teu ardente desejo de seres mais bem visto que o teu irmão, os teus muitos actos insensatos, os gestos atrapalhados das tuas mãos, os teus pensamentos pesquisadores e o teu saber que afinal nada sabe, todas essas loucuras que te impedem até de dormir descansado na tua esteira.

 

Capa do livro "O Papalagui"   Livro "O Papalagui"Livro "O Papalagui"