O Mistério da Estrada de Sintra – Eça de Queirós e Ramalho Ortigão

 

Entre 24 de Julho e 27 de Setembro de 1870, era publicado o primeiro romance policial português no jornal Diário de Notícias através de cartas anónimas. Cartas essas que causaram alguma agitação entre os leitores pois tomou-se como certa a veracidade dos acontecimentos. Ao regressarem de Sintra, um médico e o seu amigo são raptados por um grupo de mascarados. Depois de serem levados para uma casa isolada descobrem um cadáver, e a partir daí a história começa a desenrolar-se no sentido de se perceber as causas da morte e se existe um culpado.

 

 

 

Estava deitado numa chaise longue com a cabeça pousada numa almofada, as pernas ligeiramente cruzadas, um dos braços curvado descansando no peito, o outro pendente e a mão inerte assente sobre o chão. Não tinha golpe, contusão, ferimento, ou extravasamento de sangue; não tinha sinais de congestão, nem vestígios de estrangulação.

 

Sou só. O meu destino tenho-o aqui preso na minha mão, como um pássaro, ou como uma luva: posso pousá-lo sobre a tolda dum paquete, pô-lo numa mesa de jogo em cima duma carta, colocá-lo na ponta duma espada, ou fechar-to na mão e dar-to.

 

O seu olhar era franco: os homens deviam encontrar nele o que quer que fosse, que prometia um destino pacífico.

Tinha arrebatamentos entusiásticos, indignações convictas, concentrações melancólicas, que se via provirem desse fundo de lágrimas, que todas as naturezas privilegiadamente boas e honestas têm no íntimo da sua essência. Pareceu-me, finalmente, um coração leal e honrado, e não é fácil enganar-se por este modo, depois de uma provação suprema e definitiva como aquela em que nos achámos, um homem com a minha experiência do mundo e a minha prática dos fingimentos humanos.

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