O Clube dos Anjos – Luis Fernando Verissimo

 

“Todo o desejo é um desejo de morte”, é a expressão que levanta um pouco do véu desta obra de Luis Fernando Verissimo que não é nada mais senão uma reflexão sobre os nossos desejos incontroláveis. 

O Clube dos Anjos faz parte da Colecção Plenos Pecados, composta por sete livros escritos por sete autores distintos. Cada livro foca-se num pecado capital. De um ponto de vista actual é feita uma análise de cada um dos pecados que vêm aprisionando o homem ao longo dos tempos.

Esta temática remete para o desejo do que é proibido associado ao sentimento de adrenalina que existe ao desafiar limites – ignorando consequências. 

Neste livro, a gula e a euforia são representadas em jantares mensais de um grupo de amigos que em comum tem o prazer pela comida. Prazer esse que os vai conduzindo à morte. Contudo, esta perspectiva só estimula cada vez mais o desejo desenfreado, mesmo com os seus destinos já traçados. 

 

No início, não era apenas o prazer de comer, beber e estar juntos que nos unia. Havia a ostentação, sim. Depois que trocamos o picadinho do Alberi por coisas mais finas, nossos jantares passaram a ser rituais de poder, mesmo que não soubéssemos então. Podíamos comer e beber bem, por isso comíamos e bebíamos do melhor e fazíamos questão de ser vistos e ouvidos no exercício do nosso privilégio. (…) Éramos diferentes, e festejávamos a nossa amizade e a nossa singularidade naquelas celebrações barulhentas de um gosto comum. Tínhamos um discernimento superior da vida e dos seus sabores, o que nos unia mesmo era a certeza de que nossa fome representava todos os apetites que um dia nos dariam o mundo.

 

Não sei porque contei tudo isso para alguém que mal conhecia. Talvez porque nunca antes tivera um ouvinte tão atento. Lucídio estava imóvel, as mãos juntas postas sobre a mesa como um embrulho bem-feito que ele só desfazia para tomar outro gole de café. Estava ficando tarde.

 

Havia um cheiro de alho no velório. Não sei se vinha do morto. Ficamos, os oito, no centro da capela, num bolo retangular à parte, como uma falange romana esperando o ataque de qualquer lado. Talvez o cheiro fosse nosso. Não conhecíamos ninguém ali, além da viúva. Que estava horrorosa, sem pintura, sentada ao lado do caixão. A ausência de maquiagem deixava à mostra as cicatrizes das suas plásticas. Não levantar os olhos para receber nossos pêsames. Cada um de nós tivera que buscar sua mão direita no seu colo, apertá-la, e depois devolvê-la com cuidado. 

Canapés fantásticos. Aspargos gigantes, saídos Deus sabe de onde, com molho hollandaise. E as quiches Lorraines. Delicadas, deliciosas, divinas. Duas por pessoa, ocupando todo o prato. Todos os pratos voltaram para a cozinha vazios. A única nota destoante do jantar foram os vinhos do Paulo. Paulo trabalhava para Pedro, que estava quebrando. Segundo Samuel, a regra numa situação assim é os vinhos dos empregados piorarem à medida que os do patrão melhoram, pois o patrão passa a gastar mais com supérfluos, para se consolar, do que com sua empresa falida e seus empregados.

Coisas que amam a noite não amariam noites como aquela. Rei Lear, me pergunte qualquer coisa. (…) Foi uma noite de tempestade shakespeariana, com relâmpagos artificiais e trovoadas de folhas de flandres, que Samuel e Lucídio se encontraram para a cena final da sua história, no meu apartamento, nos meus salões vazios.

Capa Livro Joyland   Capa Livro Joyland