Morreste-me – José Luís Peixoto

 

“Morreste-me” é uma homenagem feita ao pai do autor, aquando a sua morte. Passando por vários momentos importantes da sua juventude até aos instantes que antecedem o último suspiro do seu pai, José Luís Peixoto vai desfiando, de uma forma comovente, todos os sentimentos guardados e todas as mágoas. A dor descoberta ajuda a construir esta obra que é um adeus, um relato intenso do luto mas também da saudade. Para a posteridade.

 

Regressei a esta terra agora cruel. A nossa terra, pai. E tudo como se continuasse. Diante de mim, as ruas varridas, o sol enegrecido de luz a limpar as casas, a branquear a cal, e o tempo entristecido, o tempo parado, o tempo entristecido e muito mais triste do que quando os teus olhos, claros de névoa e maresia distante fresca, engoliam esta luz agora cruel, quando os teus olhos falavam alto e o mundo não queria ser mais que existir.

O ar finge-se respirável, a lezíria finge-se infinita na asfixia deste lugar pequeno e emparedado. E este lugar que era mundo, agora, vazio oco quer ser mundo ainda. E, realmente, tudo se mantém suspenso. Tudo quer e tenta ser igual. Todos parecem acreditar. Sem ti, as pessoas ainda vão para onde iam, ainda seguem as mesmas linhas invisíveis. Mas eu sei, pai. Perderam-se as leis contigo. Perdeu-se a ordem que trazias.

 

As ideias, as tuas memórias cobertas por madeira e verniz e um crucifixo. O caixão fechado.

Passei a noite sozinho. Contigo. Perto do silêncio absoluto. No negro que não existia quando as noites esperavam manhãs com sol, a vida que descia do teu sorriso e parava e corria nos nossos rostos. Agora, negro negro, oposto às manhãs de junho, à primavera que destilavas na brisa sem fim do teu olhar e nos devolvias ensinavas, para agora nos faltar, como vida, como sol, no tempo que não nos quer e nos arrasa; para agora apenas lembrarmos a tempestade do teu olhar sob coroas de flores, o inverno pesado do teu olhar, o vento, o dilúvio no peito e o negro de te chorarmos ali, sobre ti, como se houvesse lágrimas que pudessem conter o vazio que ficou dos gestos que não fazes, das palavras que não dizes, do olhar permanente que tinhas e já não podes ter.

 

 

 

Capa do livro "Morreste-me"  Livro "Morreste-me"Livro "Morreste-me"