Lunário – Al Berto

 

“Sempre levei na bagagem muito pouca coisa…”. A ausência de limites, os excessos permanentes, o desprendimento e a falta de raízes – é esta a realidade de Beno. As ligações efémeras, o descartável. Tudo isto conduz a um sentimento enorme de solidão e de falta de pertença. As fases lunares servem de metáfora para a narrativa desta busca pessoal por aquilo que Beno considera poder vir a preencher o vazio que reside dentro de si e na sua vida.

 

Aqui estou eu… só, dentro e fora de mim, último passageiro da minha noite interior.

Estou sozinho, ardo na memória das noites em que não te conhecia. E não sei se suportarei o peso de teu rosto ausente sobre o peito, tatuado; e talvez recorde a tua respiração enforcando-me, noite após noite, enquanto durmo. Tua mão escavou o desejo entorpecido nestas débeis veias, e já não sei se sonhamos o mesmo sonho, ou se nos levantamos ao mesmo tempo para o amor, mas ainda te amo.

Naqueles anos, todos eles se tinham movido sem saberem muito bem se acordariam na manhã seguinte. Viviam numa febre constante, numa vertigem, num excesso permanente. Era preciso viver depressa e morrer, de preferência, ainda jovem. Nenhum deles alimentava projectos ou ambicionava fosse o que fosse. Era-lhes indiferente estar vivo ou morto. Mantinham-se nesse lugar mal iluminado e sem saída: a vida. Uns tinham fugido de casa dos pais, outros tinham-se exilado voluntariamente do mundo. Viviam espalhados por apartamentos de subúrbio, ou tinham viajado para países distantes de onde raramente regressavam. E, dos que ficaram, nenhum possuía uma ideia precisa daquilo que seria necessário fazer para não sucumbir em tamanha desolação. Nenhum deles tentara sequer explicar aos outros que estranho vazio que se apoderara de si. Restava-lhes a amizade e a cumplicidade de alguma paixão para resistirem ao caos devorador da cidade, e à moleza quase beata da ‘geração’ a que se recusavam pertencer.

 

…Mas chega, Nému, estou cansado. Quis apenas contar a minha viagem, e dizer-te que não houve redenção alguma em atravessar noites e cidades. Não, não há consolo, nem espaço suficientemente grande para passear a melancolia de quem está vivo…

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