Correcções – Jonathan Franzen

 

Esta é a história de uma família americana durante os anos 90, antes da crise económica e dos atentados do 11 de Setembro. Franzen dá-nos a conhecer a família Lambert, retrato do sonho americano promovido e ambicionado durante décadas, e com ela faz-nos um retrato social do Estados Unidos. São expostos os conflitos geracionais, de valores e o desmoronar do ideal de família em que está subjacente que os filhos sigam as pisadas dos pais e que se tornem dedicados ao trabalho e à família. A crítica ao “american way of life” também é visível no consumismo desenfreado assim como na manipulação das indústrias da saúde em nos fazer crer que a solução está nos medicamentos. Um marco importante do início do século foi o boom tecnológico provocado pela internet e pelos computadores, que também é reflectido ao longo da obra.

 

Passou-lhe pela cabeça que o acto impetuoso de Denise podia mesmo ter sido desencadeado, ainda que em pequena parte, pelo desejo da filha de fazer o que era moralmente certo e agradar à mãe. Como uma escova de dentes na santa, como um grilo morto numa salada, como uma fralda na mesa de jantar, Enid via-se confrontada com este revoltante enigma: poderia, de facto, ter sido preferível que Denise cometesse adultério, poderia ter sido melhor conspurcar-se num momentâneo prazer egoísta, poderia ter sido melhor desperdiçar uma pureza que todo o jovem decente tinha o direito de esperar de uma futura noiva, do que casar com Emile? Só que, para começar, Denise nunca deveria ter-se sentido atraída por Emile! Era o mesmo problema que Enid tinha com Chip e, até, com Gary: os seus filhos não condiziam. Não queriam as coisas que ela e todos os seus amigos e todos os filhos dos seus amigos queriam. Os seus filhos queriam, de modo radical e vergonhoso, outras coisas.

Durante esta longa semana teve uma consciência tão constante de novo e estranho tremor de Alfred que quando, depois de insisitência, ele concordou em consultar o seu médico e foi encaminhado para o Dr. Hedgpeth e este lhe diagnosticou a doença de Parkinson, um ramo oculto da inteligência de Enid persistiu em relacionar a doença do marido com a notícia de Denise e, por isso em culpar a filha pelo posterior descalabro da sua própria qualidade de vida, apesar de o Dr. Hedgpeth ter frisado que a Parkinson era de origem somática e gradual no aparecimento.

A hora de deitar chegou cedo, e quando Alfred começou a mexer-se já ela estava acordada, ouvindo a campainha da ansiedade tocar com tal força que a armação da sua cama estremecia e os lençóis se tinham tornado abrasivos, e ali estava Alfred a acender luzes e a gritar, um vizinho do lado a bater na parede e a gritar também, (…) e o balido da palavra “Enid” até quase a gastar, e a mulher com o nome em carne viva a soluçar no escuro com um desespero e uma ansiedade tão imensos como jamais experimentara (…).

Papá! Papá – gritaram, do lado de fora da porta. Gary voltou-se e viu Aaron a sacudir desvairadamente a cabeça, fora de si, com o rosto bonito alterado e molhado de lágrimas. – Pare de gritar com ela! O neurofactor do remorso (Factor 26) inundou os lugares do cérebro de Gary especialmente adaptados pela evolução para lhe reagirem.

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