Cândido ou Optimismo – Voltaire

 

O conto satírico publicado em 1759 critica a realidade assim como o tipo de pensamento vigente à época. A personagem principal da história, Cândido, foi instruído com o conceito de que “o que existe não pode ser diferente, porque tendo sido tudo criado para um fim, tudo é necessariamente para o melhor dos fins”. Com efeito, este pensamento irá determinar a forma como Cândido testemunha e reage às dificuldades eminentes no mundo.

 

Após o tremor de terra que destruíra três quartos de Lisboa, os sábios de país cogitaram em que o meio mais eficaz para prevenir a ruína total da cidade consistia em dar ao povo um rico auto-de-fé. Fora decidido pela Universidade de Coimbra que o espectáculo de várias pessoas queimadas a fogo lento, com grande cerimonial, era um segredo infalível para impedir a terra de tremer.

 

À mesa sentava-se um homem sábio e de bom-gosto, que apoiou o que dizia a marquesa. Falou-se em seguida de tragédias; a dama inquiriu por que razão havia tragédias capazes de se representarem e impossíveis de se lerem. O homem de bom-gosto explicou muito bem como uma peça podia ter algum interesse, e possuir pouco mérito. Em poucas palavras conseguiu provar que não bastava saber teatralizar uma ou duas situações banais nos romances e que sempre seduzem os espectadores, mas que era necessário inovar sem ser bizarro, por vezes sublime, e sempre natural, conhecer o coração humano e fazê-lo falar, ser grande poeta, sem que nenhuma personagem da peça pareça poeta (…).

 

O barão empalideceu perante o que via. O terno amante Cândido, vendo a sua bela Cunegundes de pele escura, os olhos raiados de sangue, peito chato, faces enrugadas, braços vermelhos e escamosos, recuou três passos transido de horror e em seguida avançou por delicadeza. Ela abraçou Cândido e o seu irmão; abraçaram a velha; Cândido resgatou as duas.

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