Biblioteca – Pedro Mexia

 

Nesta pequena enciclopédia, Pedro Mexia selecciona e reúne alguns dos livros e autores mais importantes de todos os tempos, assim como também dá o seu parecer e acrescenta factos históricos relevantes e pouco conhecidos.

Dei-lhes alguma razão quando comecei a ler Balzac atentamente. O colossal «Ilusões Perdidas» é o romance definitivo sobre a corrupção moral da vida urbana (e também provinciana); mas descobri uma preciosidade chamada «A Rapariga dos Olhos de Ouro», novela publicada em 1835 (…). O texto deu brado pela sua dimensão fantástica e ousada, mas o que me interessa sobretudo é o capítulo inicial: a descrição vívida de uma cidade enquanto inferno dantesco, com os seus círculos e os seus vícios.
A vantagem deste refúgio campestre é que o silêncio é quase absoluto, um automóvel que passa, uns cães impacientes, uma motoneta com o escape destemperado, pouco mais. E aquela era uma manhã calmíssima, excepto o baque constante que eu não sabia de onde vinha. Espreitei a porta e a varanda, não havia ninguém, mas o barulho continuava. Parei para localizar as pancadas, e de súbito dei com um corvo, bastante grande, mas que me pareceu gigante, mitológico, a bicar repetidamente a janela, tomando balanço, doido para entrar.
Tropecei fatalmente em Dostoiévski, «Uma mulher doce», um conto de 1876. Era deste texto que eu andava à procura, embora nunca o tivesse lido antes. A edição francesa que encontrei, azul escura, de bolso, tem na capa a lindíssima Dominique Sanda, «mulher doce» da adaptação cinematográfica de Bresson, de 1969, que vi há anos na Cinemateca. Tinham-me ficado imagens de Bresson e imagens de Sanda, mas não da história, não de Dostoiévski, talvez porque terei lido por essa altura um outro conto terrível, de uma tristeza surda, «Noites brancas», onde quase tudo se ganhou e quase tudo se perdeu entre dois desconhecidos. «Uma mulher doce» é ainda mais grave, pois descreve o amor como força bruta, autónoma, indomável por quem ama ou não ama, o amor como mistério feroz e violento.
Conheci o «pequeno século vinte» através de Tintim, muito miúdo, e sempre me entusiasmei com a quantidade de figuras que Hergé criava, umas ancoradas na História, outras caricaturas e abstracções. Por exemplo, concebi a Europa balcânica como uma confusão heráldica, um pouco improvável, e um dia, de repente, houve a tragédia da Jugoslávia e esse imaginário regressou. De igual modo, o meu cepticismo face a revolucionários de toda a espécie talvez tenha alguma coisa que ver com os «pícaros» de Hergé, bons para a estroina e a aventura mas pouco confiáveis para organizar uma sociedade decente.

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