As Portas da Percepção – Aldous Huxley

 

Quatro décimos de grama de mescalina e as portas de um novo mundo abrem-se para Aldous Huxley.
Este livro é o registo de todas as alterações sensoriais e efeitos libertadores provocados por esta substância.
O facto de o ser humano necessitar de um auxiliar químico para se libertar das limitações inatas do seu sistema nervoso é uma questão que se levanta ao longo do livro, levando-nos a pensar de que forma não estaremos a restringir o nosso eu mais genuíno e criativo, assim como a veracidade da nossa percepção que nos faz passar ao lado da beleza das coisas mais simples.

 

Um pouco mais tarde, surgiram superfícies vermelhas sumptuosas a inchar e a expandir-se a partir de nódulos cintilantes de energia que vibravam com uma vida feita de padrões em contínua mutação. Noutro momento, o acto de fechar as pálpebras revelou um complexo de estruturas cinzentas, no seio do qual esferas azuladas de tom claro emergiam constantemente, tornando-se intensamente sólidas, e, tendo emergido, deslizavam em silêncio para o alto, desaparecendo da vista.

Tomei a substância às onze. Uma hora e meia depois, estava sentado no meu estúdio, a olhar fixamente para uma pequena jarra de vidro. A jarra continha somente três flores – uma rosa Belle Portugaise que já desabrochara por completo, de um tom de rosa-búzio com laivos de uma cor mais quente, mais chamejante, na base de todas as pétalas; um grande cravo magenta e creme; e, púrpura-clara na extermidade do seu pé alquebrado, a corola ousada e heráldica de um lírio. Fortuito e improvisado, aquele pequeno bouquet infringia todas as regras do bom gosto tradicional. Ao pequeno-almoço, naquela mesma manhã, a dissonância garrida das suas cores prendera-me o olhar. Não era isso que agora importava, no entanto. Eu já não estava a olhar para um arranjo floral invulgar. Estava a ver o que Adão viu na manhã da sua criação – o milagre, momento após momento, da existência nua a crua.
Habitualmente, o olho preocupa-se com, problemas como Onde? – A que distância? – Em que posição relativamente a quê? Na experiência com a mescalina, as perguntas implícitas a que o olho reage são de outra índole. O lugar e a distância deixam de ter grande interesse. A mente apreende o que a rodeia em termos da intensidade da existência, da profundidade da relevância, das relações no âmbito de um dado padrão. Eu via os livros, mas não me preocupei minimamente com a posição que eles ocupavam no espaço. Aquilo em que reparei, aquilo que se me gravou no espírito, foi o facto de todos eles rebrilharem com uma luz viva e de em alguns deles este esplendor ser mais óbvio de que noutros. (…) O espírito preocupava-se, antes de mais nada, não com as medidas e as localizações, mas com o ser e o significado.
Certas pessoas nunca chegam a descobrir os seus antípodas de forma consciente. Outras ainda (mas são poucas) têm facilidade em visitar essas paragens e em regressar a seu bel-prazer. (…) Há dois métodos possíveis. (…) No primeiro caso, a alma é arrebatada até ao seu destino longínquo com a ajuda de uma substância química – seja a mescalina, seja o ácido lisérgico. No segundo caso, o veículo é psicológico por natureza, e a passagem.”, para os antípodas do espírito é levada a cabo por hipnose. Ambos os veículos conduzem a consciência até à mesma região, mas a droga possui um alcance mais vasto e conduz os seus passageiros até mais longe na terra incógnita.
Os objectos cintilantes poderão recordar ao nosso inconsciente os prazeres de que desfruta nos antípodas da mente, e estas sugestões obscuras da vida no Outro Mundo são tão fascinantes que prestamos menos atenção a este mundo, e assim tornamo-nos capazes de experimentar conscientemente uma parcela do que, inconscientemente, está sempre connosco.

Primeira página do livro As Portas da PercepçãoFoto Aldous Huxley