1984 – George Orwell

 

A ideia de que o ser humano é um instrumento ao serviço dos interesses de sistemas sociais, políticos e económicos é algo intemporal. George Orwell consegue esse retrato fidedigno ao fazer uma crítica aos mecanismos de controlo da sociedade.

 

A finalidade da novilíngua é precisamente restringir o campo do pensamento. Acabaremos por conseguir que o crimepensar seja literalmente impossível, pois não haverá palavras para o exprimir. Todos os conceitos de que possamos ter necessidade serão expressos, cada um deles, exclusivamente por uma palavra, de significação rigorosamente definida, sendo eliminados e votados ao esquecimento todos os seus sentidos subsidiários.

Atrás das costas de Winston, a voz do telecrã continuava a palrar sobre ferro fundido e a forma como haviam sido ultrapassados os objectivos do Nono Plano Trienal. O telecrã captava e emitia ao mesmo tempo. Qualquer som que Winston fizesse acima do nível de um tenuíssimo sussurro seria por ele registado; além disso, enquanto alguém permanecesse no campo de visão dominado pela placa metálica, podia ser não apenas ouvido mas também visto. Não havia, é claro, maneira de as pessoas saberem se estavam a ser observadas em dado momento.

Se o Partido tinha o poder de alterar o passado e de afirmar sobre este ou aquele acontecimento: isto nunca aconteceu – não seria tal poder mais temível do que a simples tortura ou morte?

O telecrã não parava de debitar estatísticas fabulosas. Em comparação com o ano anterior havia mais comida, mais roupas, mais casas, mais móveis, mais panelas, mais combustível, mais navios, mais helicópteros, mais livros, mais bebés – mais de tudo, excepto doença, crime e loucura.

Ali parado a olhar, Winston pensou que o velho, que teria talvez uns oitenta anos, já devia ser homem de meia-idade na altura da Revolução. Ele e alguns outros como ele constituíam o derradeiro elo de ligação ao extinto mundo do capitalismo.

Nós não estamos interessados nesses estúpidos crimes que cometeste. O Partido não se interessa pelos actos declarados: o que importa é o pensamento. Não nos limitamos a destruir os inimigos; nós modificamo-los.

Capa do livro "1984"  Capa do livro "1984"Capa do livro "1984"